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O mito do bom profissional da saúde prejudica a comunicação digital

Se você é um profissional da saúde, provavelmente já se deparou com o mito do “bom profissional da saúde”. Uma figura etérea, onipresente e até mesmo sagrada, que fazem os estudantes e formados seguir cegamente, sob risco de fracassar na profissão.

Porém, você também deve ter começado a usar mais as redes sociais para divulgar o seu trabalho durante a pandemia. Talvez esteja mais familiarizado, talvez ainda não se adaptou a esse universo.

Mas sabe quem atrapalha diretamente a sua presença digital e te faz não ser bem sucedido nas redes? Ele mesmo, o mito do bom profissional da saúde, e quanto mais cedo você se desprender dele, mais fácil será a sua trajetória no meio virtual.

Ficou curioso sobre o assunto? Chega comigo que eu te explico!

O bom profissional da saúde precisa ser sério

Segundo relatos, o bom médico e o bom fisioterapeuta — assim como os demais profissionais da saúde — devem ser sérios, formais, ter boa postura e agir como se tivessem controle total da situação. Devem chamar o paciente por nome e sobrenome, não cultivar a intimidade nem amizade, afinal somos profissionais, por favor.

E acima de tudo, ser impessoais.

O que foge dessa regra é visto como pouco profissional e está fadado ao fracasso, pois se você não é sério, não passa credibilidade, ainda mais sendo recém-formado. Eu vivi isso na prática clínica: fui taxado de pouco profissional por ser afetuoso com os pacientes, por deixar a terapia mais leve e agir com bom humor quando necessário.

Para os pacientes a estratégia deu muito certo. Essa atitude ajudou muito no tratamento, pois os fazia se sentir mais confortáveis, segundo o retorno que eles me traziam e a evolução mostrava. Contudo, não foi visto com bons olhos por professores e colegas, porque não parecia ser muito profissional.

No fundo, ainda impera esse comportamento dentro dos cursos da saúde: se você não age com frieza e formalidade, jamais será um profissional valorizado.

Fonte: Pavel Danilyuk (via Pexels)

Uma das origens desse comportamento vem da herança médica, que ainda é visto como o líder das equipes de saúde. O médico, na maior parte das lembranças coletivas, é o senhor imponente e autoritário, silencioso, que não se envolve com o paciente e aparenta ter todas as respostas na ponta da língua.

Provavelmente não sorri nem chama o paciente pelo nome, já que não possuem intimidade, e desde o início somos ensinados a temê-los.

Quem nunca ouviu a mãe dizer “obedece o doutor!” ou “o doutor vai te dar injeção se você não se comportar!”? Ir ao médico era visto como um castigo, o lugar onde você só vai quando as coisas estão ruins.

Fonte: Gustavo Fring (via Pexels)

As pessoas associam a imagem do médico a um senhor com cara de poucos amigos que vai receitar um remédio amargo e um tratamento rigoroso. Anos depois, ainda cultivamos essa imagem mental e enxergamos em cada profissional da saúde aquele senhorzinho maligno que nunca sorri.

Ao ver uma pessoa te atendendo que foge totalmente desse estereótipo, é como se nossa mente entrasse em curto e dissesse: “pera aí, certeza que esse cara é médico de verdade?”.

O bom profissional da saúde não posta vídeos no TikTok

Essa figura do bom profissional é tão onipotente por um grande motivo: a própria classe reforça esse estereótipo. Tenho o exemplo perfeito para ilustrar o caso.

Em 2020, o Conselho Federal de Medicina (CFM) de Rondônia emitiu uma nota dizendo ser “falta ética” os médicos postarem vídeos com danças e simulações nas redes sociais, por considerar “falta de decoro profissional”. A nota em questão estava diretamente relacionada ao TikTok, aplicativo de vídeos curtos que cresceu muito na pandemia.

Fonte: cottonbro (via Pexels)

Autopromoção e divulgação de serviços na área da saúde segue todo um conjunto de critérios fixados nos manuais de ética e conduta. Porém, considerar como falta de decoro um médico usar memes e tendências virais para combater desinformações em plena pandemia?

Existem prós e contras de ambos os lados, mas o que o lado contrário defende é que esse tipo de conteúdo prejudica a imagem do médico enquanto profissional, que o faz ser visto com menos prestígio por usar uma abordagem popular.

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Quando você diz que esse tipo de conteúdo não condiz com a medicina, está dizendo que o médico não pode produzir conteúdo na internet como uma pessoa normal. Ver um médico fazendo um vídeo descontraído nos choca, pois ele desce do pedestal que nunca deveria ter sido colocado e passa a estar no mesmo nível que eu e você.

Fonte: Tima Miroshnichenko (via Pexels)

O TikTok é uma rede que favorece o conteúdo mais espontâneo e divertido. Você pode ter uma abordagem mais formal, mas como o público majoritário são adolescentes, eles buscam por usuários que falem a sua língua. Não pensamos nisso, mas a saúde precisa ser entendida pelo paciente, não o contrário.

Se você trabalha com pediatria, vai ter que desenvolver uma estratégia de comunicação para se aproximar desse paciente. Ao lidar com pacientes pouco instruídos, é preciso simplificar a sua linguagem para se fazer entender.

Uma abordagem descontraída gera um vínculo de confiança com o paciente, porque dessa forma ele percebe que você não é o “Doutor Todo Poderoso”, e sim “gente como a gente”. Postar vídeos para conscientizar a população também é uma estratégia de prevenção e promoção de saúde.

Será então que o mito do bom profissional da saúde também não está atrelado a um sentimento arcaico de superioridade, e até mesmo arrogância? Outras carreiras não tão prestigiadas não correm o risco de parecer menos profissionais por produzir conteúdo informal. O médico sim.

Já outros profissionais da saúde podem não sofrer esse tipo de represália, por incrível que pareça. Como o médico é visto como o “chefe” e as demais áreas como “auxiliares”, são vistas como profissionais de menor importância, então tanto faz gravar esse tipo de vídeo na internet.

Isso explica porque só o conselho de Medicina se opôs à adesão dos seus profissionais no TikTok. Porém, isso não significa que apenas o médico é assombrado pelo fantasma do bom profissional da saúde.

Para estes, recai outra problemática ainda mais complexa.

O bom profissional da saúde tem medo de se expressar

Além do TikTok, as Lives também cresceram muito na pandemia, principalmente no Instagram. Nesse período, vários profissionais da saúde fizeram vídeos ao vivo para conscientizar o seu público e se afirmar como autoridades no assunto, o que é bem positivo.

Fonte: Karolina Grabowska (via Pexels)

Colegas meus de faculdade fizeram as suas lives e algumas delas eu acompanhei. Se eu fosse apenas fisioterapeuta teria achado excelente, já que o conteúdo era rico, bem abordado e havia profundidade no assunto, não eram pessoas quaisquer falando de um assunto que não dominam.

No entanto, eu assisti também como comunicólogo, e assim identifiquei um padrão: todos eles assumiram uma personalidade neutra para falar com seu público. O mesmo tom de voz, mesma postura, mesmos gestos corporais, mesmas expressões faciais.

Era como se lives diferentes de áreas e temas diversos fossem feitos pela mesma pessoa, e isso é muito ruim quando falamos em comunicação e marca pessoal. Porque o profissional perde a sua identidade nesse processo, o que vai de fato fazer com que ele se diferencie e se torne uma autoridade no meio digital.

O que essa experiência me lembrou foi a nossa defesa de TCC: a forma como se expressavam nas lives era a mesma forma que se portavam ao defender o seu trabalho para a banca. Sabiam que estavam sendo julgados enquanto profissionais, e por isso buscavam a neutralidade na comunicação.

Ou seja: profissionais da saúde são constantemente julgados pela sua comunicação e comportamento, e assim desenvolvem mecanismos para validar o seu profissionalismo. Principalmente na forma de se expressar.

Fonte: Thirdman (via Pexels)

Isso não é exclusivo da saúde, outras áreas também passam por processos semelhantes, mas os profissionais da saúde precisam provar a todo momento que estão aptos a realizar o seu trabalho

O que não é tão difícil de imaginar, já que devemos analisar dois fatores:

  • É uma área que lida diretamente com a fragilidade do outro, algo que não mostramos a qualquer um;
  • Profissionais jovens causam medo e estranheza, pois não aceitamos que alguém mais novo saiba mais do que nós mesmos.

Sendo ou não da saúde, todo jovem recém formado passa pela experiência de ver seus familiares mais velhos discutindo sobre a sua área de formação.

Para muitas pessoas é inconcebível que alguém com menos de 40 anos tenha mais competência e conhecimento sobre um assunto do que ela mesma. Ainda que a pessoa em questão não saiba absolutamente nada daquilo.

Essa é outra herança social que carregamos: nós sempre nos consideramos mais sábios e mais aptos do que os mais jovens. Nós temos experiências e vivências a mais, aprendemos alguns truques nesse processo, mas a nível profissional e científico, conhecimento está relacionado ao estudo e à prática, não ao envelhecimento.

Imagine um senhor de 65 anos indo ao fisioterapeuta para tratar uma hérnia de disco que negligenciou há décadas, e no consultório encontra uma moça com idade para ser sua neta, que se apresenta como a profissional que irá resolver o problema.

Muitos não aceitariam a ideia, então para convencer que este paciente pode confiar na sua competência, a jovem terapeuta buscará artifícios para parecer mais profissional. Entre eles, usar uma linguagem mais formal e um tom de voz neutro ou imponente.

Aliás, não para parecer mais profissional, já que o conhecimento ela possui, e sim para parecer mais experiente e confiável.

O bom profissional da saúde, no fundo, luta para ser reconhecido

Resumindo a ópera: o mito do bom profissional da saúde foi construído ao longo do tempo por diversos fatores socioculturais, como a visão do médico como topo da hierarquia, e um ser maléfico que impõe medo.

Pela área da saúde lidar com a fragilidade humana, automaticamente entramos na defensiva quando o profissional que nos atende aparenta ser tão humano quanto nós. Isso nos deixa ainda mais inseguros, e se ele for jovem, pior ainda.

É um erro acreditar que um profissional da saúde não tem competência porque ele não atende aos padrões de comportamento que nós criamos. O fantasma do bom profissional se alimenta do medo causado pela nossa visão distorcida de como um trabalhador da saúde deve se portar, e a primeira forma de combater isso é mudando a nossa mentalidade.

Se dizemos aos adolescentes que com 15 anos eles precisam decidir qual carreira seguir, por que agimos com desconfiança quando esse mesmo adolescente se forma e começa a trabalhar aos 25? 

Por que supervalorizar o médico se os profissionais da saúde atua em conjunto? Como continuar com essa crença de que um profissional da saúde precisa ser um intelectual convicto se ele é tão humano quanto eu e você?

Fonte: Thirdman (via Pexels)

Não adianta negar, a internet hoje faz parte das nossas vidas. Mesmo os mais conservadores vão usar os serviços digitais em algum momento, por isso a área da Saúde precisa, mais do que nunca, acompanhar a evolução.

Mas como a era digital é recente, começando a se estabelecer no Brasil no início dos anos 2000, temos a ideia de que a internet é coisa de jovem, e o jovem ainda não é visto como um bom profissional.

Quando o trabalhador de saúde está na internet, divulgando seu trabalho nas redes sociais, e usando recursos como vídeos engraçados que os jovens costumam usar, o fantasma do bom profissional recai sobre ele, e assim começa o julgamento por se arriscar no meio virtual.

O profissional da saúde não precisa ser sério nem velho para ser bom no que faz. Ele pode — e deve — usar as redes sociais para divulgar seu trabalho e compartilhar seus conhecimentos com os usuários. Não precisa sentir medo de se expor nem se sentir menos profissional por usar uma linguagem mais acessível, muito menos por gravar vídeos no TikTok.

Fonte: Negative Space (via Pexels)

O mundo está em constante mudança, basta pensar em como tudo se transformou de cinco anos para cá, e daqui a cinco anos viveremos uma realidade totalmente nova. A Saúde precisa acompanhar esse movimento, aproveitar o poder das redes para disseminar aquilo que aprendeu na faculdade e na prática clínica, para que todos tenham acesso aos princípios básicos de saúde e cuidado.

Afinal de contas, o bom profissional da saúde é aquele que se faz entender, seja dentro do seu consultório ou atrás de uma tela. As tecnologias e redes sociais são aliadas, e sua maior força é a sua personalidade, seja ela como for.

Porque na era da informação, o conteúdo é rei. E o conteúdo precisa ser autêntico, livre de mitos e padrões pré-definidos.

Um abraço e até a próxima.

Referências

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